29/04/1009

domingo, 1 de novembro de 2009
Fui à casa do meu amigo, mas nem cheguei a subir. Pelo interfone, ele pediu ao porteiro para me avisar que estava descendo. Esperei alguns minutos, quando um carro saiu da garagem e buzinou. Era o meu amigo me chamando. Entrei no carro e seguimos para um bar. No caminho, após uma troca de marcha, ele demorou-se um pouco mais com a mão próxima ao meu joelho e disse: “Pegue e guarde no bolso sem ler. Leia apenas quando chegar em casa. Não tocaremos mais no assunto hoje.”

Tomamos algumas cervejas, mas foi difícil conversar sobre generalidades. Sempre é difícil quando se tem um assunto específico em mente. Após cerca de uma hora de constrangimento, deixou-me em casa e pude finalmente ler o bilhete:

Sexta-feira, 22:30 h – Rua da Roda, espetinho em frente à entrada secundária do edifício Continental.

Conhecia o lugar e devo admitir, se o objetivo era marcar um encontro às escondidas, não havia cloaca mais adequada. Um antro abastecido por uns quatro bares, alguns vendedores ambulantes de espetinho de gato, bebidas, Cds piratas e outras bugigangas encravado entre os fundos de três prédios com cerca de treze andares cada dispostos de forma quase circular (daí o nome sugestivo) em uma região do centro do Recife pela qual as pessoas normais procuram evitar transitar após às 21:00.


Sobre espelhos e mapas

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

*Decidi não esperar que o diário retroativo chegasse ao ponto em que pudesse publicar as narrativas do meu tratamento visto que elas podem ajudar pessoas a contornarem problemas semelhantes aos meus. 

Ontem, enquanto fumava um cigarro à espera do sono (que por sinal sempre se atrasa),lembrei de uma consulta muito positiva que tive com o Dr. Ciarlatonni. Já pude demonstrar a admiração e a gratidão que tenho por esse verdadeiro mago da mente. Após detectar em mim o Distúrbio da Inadaptabilidade Social, ele iniciou uma verdadeira guerra contra a doença. A princípio, deixou-me à vontade para dar asas aos meus desvarios, até que me apresentou o seguinte trecho de um texto de John Locke, o qual, posteriormente, aconselhou-me a manter sempre à mão, pois os tentáculos do distúrbio estariam sempre à minha espreita, esgueirando-se através das atividades cotidianas, dos relacionamentos interpessoais. 


“Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder?

Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a utilização do mesmo é muito incerta e está constantemente exposto à invasão de terceiros porque, sendo todos senhores tanto quanto ele, todo homem igual a ele e, na maior parte, pouco observadores da equidade e da justiça, o proveito da propriedade que possui nesse estado é muito inseguro e muito arriscado. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de propriedade.” 
Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1991

Após a indicação da leitura, deixou-me permanecer à vontade em seu consultório,refletindo. Quando digo à vontade, quero dizer à vontade mesmo. Deu-me permissão para fazer um lanche, abrir o frigobar, tirar um cochilo...Retornou após cerca de uma hora e meia e sugeriu que discutíssemos o texto. Vou tentar reproduzir as falas, embora, desde já, queira deixar claro que será impossível manter-me fiel ao que realmente foi conversado, já que o tempo sempre causa alguma erosão às lembranças.

- Então, senhor Amaro, compreendeu o texto?

- Acredito que sim, pelo menos à minha maneira.

- Ótima observação. O senhor acabou de demonstrar conhecimento sobre uma das artimanhas usadas pelo seu distúrbio para deixá-lo confuso. Na verdade, senhor Amaro, cada texto tem uma única maneira de ser interpretado, afinal, quem o produziu - à exceção de alguns humoristas, poetas e ficcionistas de mente confusa ou com tendência ao vandalismo intelectual - queria expressar uma única ideia. Ou o senhor tem o costume de querer dizer duas ou três coisas diferentes quando verbaliza um pensamento? Por exemplo, como o senhor está se sentindo agora?

- Tenso.

- Por acaso o senhor acha que eu poderia entender a sua resposta de outra maneira, ou seja, que o senhor está relaxado, ou feliz?

- Não, de jeito nenhum.

- Então o senhor está me confirmando que quando o senhor diz que está tenso, quer dizer apenas que está tenso?

- Exatamente. 

- E se eu dissesse que o senhor estava mentindo?

- Eu diria que não.

- E se eu insistisse e apresentasse argumentos?

- Provavelmente seriam argumentos falsos, porque eu falei a verdade.

- Excelente, senhor Amaro! O senhor entendeu que ainda que eu usasse muitos argumentos, eles não seriam verdadeiros, já que o senhor estava falando a verdade. Mas, se eu argumentasse que sabia que o senhor estava mentindo por ter notado uma ligeira contração à esquerda do seu lábio superior?

- D...desculpe, mas o senhor pediu sinceridade...

- Sim, claro, fale o que pensar, sou seu médico, não um juiz!

- Eu diria que o senhor estava vendo coisas porque eu não menti!

- Fantástico! O Senhor sabe a que conclusão acabamos de chegar juntos?

- Não.

-De que cada texto, oral ou escrito, só permite uma maneira de ser interpretado, pois o autor teve a intenção de expressar uma única ideia. Quando alguém garimpa vestígios de uma outra ideia, está, na verdade, tentando acrescentar ideias suas às ideias do autor. Entendeu?

- Acho que sim.

- Deixe-me ser mais claro. Algumas pessoas, sobretudo as que têm distúrbios semelhantes aos seus, usam os textos como espelhos, procuram neles o que elas pensam e não o que o autor quis dizer. Ora, um texto é justamente o oposto disso, um texto é um mapa. Por acaso o senhor acharia razoável enxergar os contornos do seu bairro num mapa do continente europeu?

- Claro que não.

-Mas é possível. Basta que o seu cérebro queira e ele pode distorcer a sua visão, fazer com que o senhor não note algumas linhas, tornar mais marcantes outras e, pouco a pouco, o mapa do seu bairro aparece lá, em pleno continente europeu. E o que causou esse fenômeno tão absurdo? Simples, o seu cérebro usou o mapa como um espelho e por isso procurou nele o que parecia familiar, seu. Se isso pode acontecer com mapas geográficos, que são documentos razoavelmente simples e exatos, imagine com os “mapas verbais” em que estão presentes toda a riqueza e complexidade das línguas humanas!

-É verdade, nunca tinha pensado nisso.

- Então, senhor Amaro, até a semana que vem!

- Mmas nós nem discutimos o texto!

-Discutimos sim, não o texto do Locke, mas os textos em geral. Aproveite esses dias para reler o texto e continuar a refletir sobre ele. Procure lembrar sempre: “Textos são mapas e não espelhos”. Bom fim de semana!


11/04/2009

segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Quando disse que minha vida tornou-se bastante movimentada desde o encontro com o honesto enrustido, espero não ter dado a falsa impressão de que todos os meus dias passaram a ser movimentados. Na verdade, até que se tornaram, mas para os meus padrões. O mesmo não posso dizer sobre a minha mente, era como se o meu cérebro, antes uma pacata cidade de interior, houvesse se transformado em uma metrópole barulhenta. Passei a ter ideias estranhas, achar que tudo e todos estavam errados. O pior é que as pessoas começaram a notar, percebi caretas entre os colegas de trabalho, tive a impressão em alguns momentos de que eles se entreolhavam sempre que expressava minhas opiniões. Até a tia Marluce, na visita que lhe fiz na sexta-feira da paixão, em determinado momento do cafezinho, perguntou “Meu filho, por que você está tão crítico?” 

Neste dia encontrei novamente o honesto enrustido na casa do meu amigo. Obviamente a custo de muito constrangimento. Liguei para o meu amigo com o intuito de combinar uma visita ao seu irmão, mas quando entrei no assunto ele mostrou-se apavorado, marcou um encontro num bar e depois de lhe ter contado o que se passava comigo, aceitou, ainda que temeroso, e levou-me a sua casa. Também não foi fácil convencer o honesto enrustido a sair do seu esconderijo, o closet. Como da primeira vez, estava desconfiado, parecendo mesmo paranoico. Insisti em conversar com mais calma, disse-lhe que estava interessado nas ideias dele, que a nossa primeira conversa me provocou efeitos estranhos, passei a ter questionamentos, dificuldades de relacionamento, pensar em coisas que nunca tinha imaginado antes. A esse ponto da conversa, percebi um esboço de sorriso e, finalmente, ele aceitou marcar um encontro no feriadão do início de maio, mas não quis adiantar o lugar. Disse-me para ir novamente a casa do meu amigo na quarta-feira antes do feriado que ele daria um jeito de me informar os detalhes. 

04/01/2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Finalmente iniciarei os relatos deste diário retroativo.

*Em respeito aos possíveis leitores, só publicarei os relatos dos dias com fatos relevantes.

Como narrei com maiores detalhes na postagem “Dentro do armário”, neste dia, um domingo, fiz uma visita a um velho amigo e, no closet, encontrei escondido o seu irmão. Todos (com exceção do meu amigo e da família) acreditávamos que esse tal irmão morava há cerca de uns quinze anos em um desses estados que só conhecemos por causa das aulas de Geografia, como Acre ou Roraima, mas não. Ele continuou, durante todo esse tempo, vivendo na mesma cidade em que sempre viveu, porém escondido. O motivo, segundo o próprio, é que ele é um honesto enrustido, ou seja, é honesto, mas em consequência da enorme intolerância que a sociedade brasileira tem por pessoas com essa, digamos, peculiaridade, precisa fugir do contato com os cidadãos normais para evitar as terríveis consequências que poderia sofrer caso fossem percebidos os seus insólitos valores. 

A estranha descoberta perturbou-me demais, um misto de curiosidade e sedução. Hoje sei, conforme me explicou o Dr. Ciarlatonni, que na verdade o encontro com o tal honesto enrustido fez com que viessem à tona os sintomas de um distúrbio imanifesto, mas que eu sempre possuí, o Distúrbio da Inadaptabilidade Social (DIS). Bom, sobre o distúrbio falarei no momento adequado, pois pretendo manter a ordem cronológica dos fatos. O que importa saber na postagem atual é que passei os dias seguintes obcecado pela história do irmão do meu amigo e não sosseguei enquanto não marquei um novo encontro. 

O que faz o povo tomar as ruas?

terça-feira, 29 de setembro de 2009
EUA 1886

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França 1968

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Brasil 1985

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Brasil 2009

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