*Decidi não esperar que o diário retroativo chegasse ao ponto em que pudesse publicar as narrativas do meu tratamento visto que elas podem ajudar pessoas a contornarem problemas semelhantes aos meus.
Ontem, enquanto fumava um cigarro à espera do sono (que por sinal sempre se atrasa),lembrei de uma consulta muito positiva que tive com o Dr. Ciarlatonni. Já pude demonstrar a admiração e a gratidão que tenho por esse verdadeiro mago da mente. Após detectar em mim o Distúrbio da Inadaptabilidade Social, ele iniciou uma verdadeira guerra contra a doença. A princípio, deixou-me à vontade para dar asas aos meus desvarios, até que me apresentou o seguinte trecho de um texto de John Locke, o qual, posteriormente, aconselhou-me a manter sempre à mão, pois os tentáculos do distúrbio estariam sempre à minha espreita, esgueirando-se através das atividades cotidianas, dos relacionamentos interpessoais.
“Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder?
Ao que é óbvio responder que, embora no estado de natureza tenha tal direito, a utilização do mesmo é muito incerta e está constantemente exposto à invasão de terceiros porque, sendo todos senhores tanto quanto ele, todo homem igual a ele e, na maior parte, pouco observadores da equidade e da justiça, o proveito da propriedade que possui nesse estado é muito inseguro e muito arriscado. Estas circunstâncias obrigam-no a abandonar uma condição que, embora livre, está cheia de temores e perigos constantes; e não é sem razão que procura de boa vontade juntar-se em sociedade com outros que estão já unidos, ou pretendem unir-se, para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens a que chamo de propriedade.”
Os Pensadores. São Paulo, Nova Cultural, 1991
Após a indicação da leitura, deixou-me permanecer à vontade em seu consultório,refletindo. Quando digo à vontade, quero dizer à vontade mesmo. Deu-me permissão para fazer um lanche, abrir o frigobar, tirar um cochilo...Retornou após cerca de uma hora e meia e sugeriu que discutíssemos o texto. Vou tentar reproduzir as falas, embora, desde já, queira deixar claro que será impossível manter-me fiel ao que realmente foi conversado, já que o tempo sempre causa alguma erosão às lembranças.
- Então, senhor Amaro, compreendeu o texto?
- Acredito que sim, pelo menos à minha maneira.
- Ótima observação. O senhor acabou de demonstrar conhecimento sobre uma das artimanhas usadas pelo seu distúrbio para deixá-lo confuso. Na verdade, senhor Amaro, cada texto tem uma única maneira de ser interpretado, afinal, quem o produziu - à exceção de alguns humoristas, poetas e ficcionistas de mente confusa ou com tendência ao vandalismo intelectual - queria expressar uma única ideia. Ou o senhor tem o costume de querer dizer duas ou três coisas diferentes quando verbaliza um pensamento? Por exemplo, como o senhor está se sentindo agora?
- Tenso.
- Por acaso o senhor acha que eu poderia entender a sua resposta de outra maneira, ou seja, que o senhor está relaxado, ou feliz?
- Não, de jeito nenhum.
- Então o senhor está me confirmando que quando o senhor diz que está tenso, quer dizer apenas que está tenso?
- Exatamente.
- E se eu dissesse que o senhor estava mentindo?
- Eu diria que não.
- E se eu insistisse e apresentasse argumentos?
- Provavelmente seriam argumentos falsos, porque eu falei a verdade.
- Excelente, senhor Amaro! O senhor entendeu que ainda que eu usasse muitos argumentos, eles não seriam verdadeiros, já que o senhor estava falando a verdade. Mas, se eu argumentasse que sabia que o senhor estava mentindo por ter notado uma ligeira contração à esquerda do seu lábio superior?
- D...desculpe, mas o senhor pediu sinceridade...
- Sim, claro, fale o que pensar, sou seu médico, não um juiz!
- Eu diria que o senhor estava vendo coisas porque eu não menti!
- Fantástico! O Senhor sabe a que conclusão acabamos de chegar juntos?
- Não.
-De que cada texto, oral ou escrito, só permite uma maneira de ser interpretado, pois o autor teve a intenção de expressar uma única ideia. Quando alguém garimpa vestígios de uma outra ideia, está, na verdade, tentando acrescentar ideias suas às ideias do autor. Entendeu?
- Acho que sim.
- Deixe-me ser mais claro. Algumas pessoas, sobretudo as que têm distúrbios semelhantes aos seus, usam os textos como espelhos, procuram neles o que elas pensam e não o que o autor quis dizer. Ora, um texto é justamente o oposto disso, um texto é um mapa. Por acaso o senhor acharia razoável enxergar os contornos do seu bairro num mapa do continente europeu?
- Claro que não.
-Mas é possível. Basta que o seu cérebro queira e ele pode distorcer a sua visão, fazer com que o senhor não note algumas linhas, tornar mais marcantes outras e, pouco a pouco, o mapa do seu bairro aparece lá, em pleno continente europeu. E o que causou esse fenômeno tão absurdo? Simples, o seu cérebro usou o mapa como um espelho e por isso procurou nele o que parecia familiar, seu. Se isso pode acontecer com mapas geográficos, que são documentos razoavelmente simples e exatos, imagine com os “mapas verbais” em que estão presentes toda a riqueza e complexidade das línguas humanas!
-É verdade, nunca tinha pensado nisso.
- Então, senhor Amaro, até a semana que vem!
- Mmas nós nem discutimos o texto!
-Discutimos sim, não o texto do Locke, mas os textos em geral. Aproveite esses dias para reler o texto e continuar a refletir sobre ele. Procure lembrar sempre: “Textos são mapas e não espelhos”. Bom fim de semana!